sábado, 4 de julho de 2009


E óbvio que não enxergamos...







No capítulo 24 do Evangelho Segundo escreveu São Lucas, a partir do versículo 13 ao 35, o evangelista registrou ali algo um tanto inusitado. Havia dois discípulos de Jesus, que estavam à caminho de Emaús, distante de Jerusalém cerca de 10 kilômetros, eles estavam conversando entre si sobre os últimos acontecimentos ocorridos na cidade de Jerusalém, e claro, a condenação e morte por crucificação de seu Mestre, Jesus era o assunto principal. O interessante desta passagem, é que enquanto eles discorriam entre si sobre o acontecido ao Senhor, o próprio Senhor Jesus se pôs junto à eles no caminho, porém, estranhamente eles não reconheceram o Mestre. O mais estranho, é que como discípulos de Jesus e tendo estado com Ele cerca de três anos, ainda assim não O reconheceram! Mas por que não O reconheceram? Será que a aparência de Jesus havia mudado? O próprio texto nos dar uma pista: “Os seus olhos, porém, estavam como que impedidos de reconhecê-Lo” (vers. 16). Havia algo que eles não perceberam, sua sensibilidade espiritual estava fragilizada e emocionalmente perturbada por tudo o que aconteceu ao seu Rabi. Suas esperanças frustradas haviam sido crucificadas naquela cruz. Tudo agora era só vazio, tristeza.

Estes discípulos possivelmente fossem simpatizantes dos Zelotes, um partido político-religioso entre os judeus, que queriam pela luta armada a derrubada do domínio romano sobre Israel, acreditando que assim, “apressariam a vinda do Reino de Deus”. Entre os próprios discípulos de Jesus, havia um deles, chamado Simão, o Zelote (Lc 6.15; At 1.13). Lucas registra nesta passagem, apenas o nome de um deles, Cleopas.

Quando Jesus se pôs a caminhar com eles, indagou-lhes qual era a preocupação deles, do que estavam falando. Eles “pararam entristecidos” (vers. 17). A tristeza, muitas vezes nos impede de ver o óbvio, ficamos como “cegos que enxergam”, nossa “visão espiritual” fica turva, e não enxergamos como devia. Era isto que estava acontecendo com aqueles dois discípulos no caminho de Emaús. Um deles, Cleopas, responde ao Senhor, mesmo sem O ter reconhecido, e começa a contar tudo o que acontecera naquela última sexta feira, e começa então a revelar algo que eles achavam que o Messias deveria fazer, mostrando assim sua frustração com a crucificação de Jesus, então Cleopas diz: “Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é já este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam.”(vers. 21).

Muitas vezes o nosso querer e nossas expectativas não são iguais as do Senhor, e até mesmo são um obstáculo para “enxergarmos o óbvio”.

Aqueles dois discípulos tinham uma expectativa diferente para o Messias. Eles criam que o Messias iria unir o povo de Israel em torne de Si mesmo, e iria tramar um levante armado contra a dominação romana, e se auto-proclamar rei, restaurando novamente o reino de Israel, como fora no passado (Atos 1.6,7). Mas isto não aconteceu, de fato é verdade que Jesus veio restaurar o Reino, mas não um reino físico, e sim um reino espiritual, veio restaurar a comunhão entre o homem e Deus. Mas agora aqueles dois discípulos tinham tristeza em si e suas esperanças pareceriam agora mais do que frustradas, já que o Messias idealizado por eles havia sido crucificado como um criminoso. Eles não enxergavam que tais coisas já haviam sido profetizadas há anos nas Escrituras. E que o próprio Jesus, enquanto estava com eles havia dito e explicado antecipadamente aqueles acontecimentos daquela sexta feira, o dia marcado no Kairós de Deus para levar a efeito uma verdadeira libertação de Israel, e não somente dele, mas de toda a raça humana. Suas mentes não podiam conceber ou entender tais coisas. Sua frustração os impedia de lembrarem dos ensinamentos do Senhor.

Mas Deus é maravilhosamente misericordioso! E até mesmo com aqueles discípulos “incrédulos” tratou de lhes ensinar mais uma vez, a verdadeira missão do Messias.

Jesus então “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras.” (vers. 27). A seguir, Jesus fez menção de seguir adiante, porém, aqueles discípulos insistiram para que Aquele desconhecido ficasse com eles, “porque é tarde, e o dia já declina. E entrou para ficar com eles.”

E na hora da refeição com eles, algo surpreendente acontece! Eles reconhecem aquele modo de “partir o pão, aquela bênção proferida, aqueles gestos”.

Sim, era Ele! Era Ele! O próprio Jesus estava ali com eles. Seus olhos foram “abertos”, e imediatamente O reconheceram. Seu Amado Messias havia de fato ressuscitado, como as mulheres e outros discípulos já tinham dito a eles (verss.22,23). Mas antes que falassem qualquer coisa, Jesus desapareceu diante deles.

E quantas vezes não acontece conosco o que aconteceu com estes dois discípulos no caminho de Emaús? Estamos tão preocupados com nossas próprias teorias, que não enxergamos mais Jesus ao nosso lado. E muitas vezes, mesmo no culto, quando ouvimos a Palavra, “nosso coração arde”, porém por causa dos nossos olhos obscurecidos ficamos como que impedidos de vermos o agir do Senhor na nossa caminhada diária, não sentimos Sua presença, não porque Ele não esteja ali ao nosso lado, mas sim porque ignoramos o óbvio. E o óbvio é que Ele está conosco todos os dias, ainda que não O percebamos, ainda que O ignoremos, Ele sempre está conosco, pois Ele mesmo prometeu: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mt 28.20)


Queridos, ainda que esteja tão difícil de reconhê-Lo, de ver o seu agir, de sentir Sua presença, apenas creia no que Ele mesmo prometeu, de que sempre estaria conosco, e que estejamos abertos a Sua presença, que possamos dizer nestas horas de aflição:


fica conosco Senhor, porque é tarde e o dia já reclina” (Lc 24.29).


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